Um mundo de indiferentes e o congelamento do amor

Esses são tempos de sombras, mesmo quando o sol esforça-se em exibir os seus mais poderosos raios.

Em uma dessas manhãs pandêmicas, com o cheiro da morte contaminando o ar mais puro e as nuvens cinzentas anunciando mais um dia de horror, equipei-me com máscara, luvas e um pequeno frasco de álcool em gel e saí às ruas na vã esperança de alcançar a liberdade que eu não estava conseguindo encontrar no emparedamento de minha casa.

Nas ruas, pessoas sem máscaras aglomeravam-se aos montes. Por um momento, pensei que tivesse saído de um estado de criogenia e acordado no pós-vacinação. Fiquei aliviado, feliz. Estava prestes a retirar a minha máscara de proteção quando vi, do outro lado da rua, uma senhora sentada em uma cadeira de balanço, na calçada de sua casa, com aquele escudo de tecido protegendo sua boca e sua respiração. Ela parecia assustada e a todo momento encolhia-se quando alguém invadia a distância que a mantinha minimamente segura.

Chamei uma pessoa que passava desprotegida e perguntei-lhe:

— Você não tem medo de ser contaminada por esse vírus maldito?

— Não — ela respondeu convictamente. — Eu já fui contaminado e me recuperei — concluiu.

— Mas você não teme carregar o vírus de alguma forma e contaminar aqueles que ainda não passaram por essa situação? — questionei.

— Claro que não. Quem precisar que tenha cuidado. Preciso viver a minha vida. Já passei tempo demais trancado, preso por uma máscara mesmo quando aparentemente estava livre — ela disse sem nenhum constrangimento.

Naquele instante, vi como os gases que davam vida à chama da estrela do amor tinham se esgotado. Senti um frio percorrer pela minha espinha. O mundo era um lugar gelado, agora.

Saí em silêncio reflexivo, cabisbaixo, com pensamentos que sobrevoavam o mundo zumbilesco instaurado quando me ausentei, mesmo que durante esse tempo todo o meu corpo estivesse presente no cenário apocalíptico em desenvolvimento.

As pessoas já não se importavam com a humanidade. Elas caminhavam sobre corpos e festejavam. Havia festas nas ruas e lágrimas nas casas por onde o ceifador tinha passado. Somente dava para ver a indiferença.

A empatia ainda era uma palavra bastante pronunciada, mas perdeu corpo, perdeu vida, deixou de existir na prática.

No noticiário do dia foi anunciado que mais de cento e setenta e sete mil pessoas perderam a batalha para esse inimigo descomunal.

Enquanto isso, bares colocavam shows ao vivo, as praças permaneciam lotadas, o poder público já não se importava mais. As igrejas e templos religiosos faziam seus rituais macabros sobre as cinzas dos mortos e promoviam mais contágios, arrecadando fundos para a “grande obra”, usando o nome de Deus para hipnotizar os “fiéis”.

A hipocrisia embalava a dança mortífera da Covid e o negacionismo era o escudo protetor dos que pouco ou nada se importavam com a vida do cidadão ao seu lado.

Infelizmente, aquela não foi uma manhã isolada: o cenário hoje é ainda pior.

A humanidade, vendada e amordaçada, caminha cegamente ao abismo irreversível, puxada por seres inescrupulosos, gananciosos, indiferentes, alimentados por dinheiro marcado pelo sofrimento humano, pela dor e pelas múltiplas agonias.

Olho para cima e vejo as cordinhas dos marionetistas medonhos fazendo o destino de tanta gente.

A chama do amor se apagou.

O mundo congelou.

Pouco da bondade humana restou.

Por Robison Sá


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