O abraço que salvou o mundo

O dia surgia lindo naquele sábado de verão. O Sol despontava por detrás da Corcunda, uma montanha enorme que ficava ao alcance da visão de todos que moravam no Vale da Relva. Os olhares da madrugada assistiam encantados o espreguiçar da nossa estrela mais linda. A terra começava a ser marcada por passos matinais, suaves e contínuos, atraídos pelo brilho radiante que parecia transformar a Corcunda num objeto retirado de filmes de ficção, repleto de efeitos especiais. O Vale da Relva acordava compassadamente, fazendo com que as vidas brotassem de portas e janelas e dessem ainda mais capricho àquilo que mais parecia uma obra de arte.

Os primeiros sorrisos ecoaram pelas vielas mais incomuns. As vozes completavam a sinfonia de uma orquestra natural, regida pelo invisível e protagonizada por figuras pouco conhecidas além daquelas fronteiras. Dava para ouvir os passos dando o compasso daquela canção divina, bela e inesquecível. A vida surgia de todas as frestas, das veredas, do campo forrado por uma relva hipnotizante, que amortecia os passos mais pesados e agoniantes.

Foi nesse cenário que Clarinha, uma menina de apenas sete anos, saiu para correr e conversar com os pássaros. Esse era o seu hábito diário. Os pequenos voadores já ansiavam pela sua chegada e pareciam mesmo compreender cada sílaba que a jovem pronunciava.

Esticando o seu dedo indicador, Clarinha viu o primeiro beija-flor pousar sobre ele, batendo suas asas alegremente e tocando repetidamente o seu bico sobre o dedo, como se a beijasse com muito carinho. Em seguida, ela viu mais e mais pássaros chegarem: bem-te-vis, cardeais, mais beija-flores e muitos outros amigos que a visitavam diariamente. Ela corria pelo tapete de relva, colhia flores, conversava com os pássaros, rodopiava com uma bailarina embalada pela sinfonia do vilarejo.

O pequeno beija-flor começou a voar e subir um dos muitos montes dali. O minúsculo pássaro voava sobre uma estreita vereda. Voava e olhava para trás, como se convidasse Clarinha para subir também. Ela correu atrás dele e ofegou durante o percurso, mas precisava ver o que o pequeno gostaria de lhe mostrar.

Ao chegar no topo do monte, a menina avistou Carmen, uma mulher de pouco mais de quarenta anos que tinha acabado de ficar viúva. O seu marido, Jorge, tinha sido acometido de uma pneumonia aguda e foi a óbito naquela semana.

Abaixo daquele monte, havia um lago deslumbrante, com águas cristalinas. Ele era conhecido como o Lago Transparente. Clarinha observava de longe os cabelos esvoaçantes daquela mulher e as lágrimas que escorriam em cachoeiras, parecendo alimentar o Lago Transparente. A mulher andou um pouco mais para perto do abismo e colocou as mãos sobre a cabeça, soluçando e gritando:

— Minha vida não tem mais sentido. Não há mais nada para mim neste mundo. Tudo que eu tinha se foi. O mundo é um martírio para mim. Devo acabar com essa dor agora mesmo — Carmem concluiu sua fala e correu para o precipício, quando ouviu uma voz suave.

— Dona Carmen, dona Carmen. A senhora me ajuda a encontrar o meu beija-flor?

Carmen não acreditava no que ouvia. Seria um anjo falando? Voltou-se para trás e viu os olhos de Clarinha molhados de lágrimas.

— Aonde a senhora está indo, dona Carmen? Volte aqui, por favor, e me ajude com o meu beija-flor — implorou Clarinha.

Carmen estava paralisada, não sabia o que falar, o que fazer, o que pensar. Quando ia falar, ouviu:

— Se a senhora deixar o nosso vilarejo, a quem vou contar as histórias que os meus passarinhos me contam? Para quem vou narrar as minhas aventuras? Onde irei comer um pão tão decilioso e tomar uma xícara de chá nos nos finais de tarde? Quem me ajudará a encontrar o meu beija-flor quando ele se perder?

Carmen caiu de joelhos sobre a relva úmida e, com as mãos sobre a face, chorou inconsolavelmente. Ela não sabia o que responder àquela doce criança, que por tanto tempo teve nela uma amiga, uma protetora, mesmo não sendo de sua própria família.

Quando conseguiu se recuperar um pouco daquela emoção, lembrou-se do seu marido e a tristeza a abateu novamente. Rapidamente, ela se levantou, sem ter coragem de olhar nos olhos de Clarinha, começou a caminhar novamente para o precipício. Os seus passos eram pesados, agora.

Apenas um metro a separava da queda para o fim de tudo, mas um abraço em suas pernas a fez cambalear. Ela pôde sentir o calor de mãos pequenas e a umidade de lágrimas que escorreram por suas pernas.

— Se a senhora se for, dona Camen, a quem darei o meu abraço?

Camen se equilibrou, se ajoelhou novamente e retribuiu aquele abraço acalentador. Naquele momento, os olhos dela se abriram e ela enxergou o amor naquela menina, na brisa que soprava nos seus cabelos, nas vozes que ecoavam no Vale, no canto dos pássaros, no cheiro das flores, nos sorrisos que se abriam para ela todos os dias em sua vizinhança. O amor era algo maior, agora ela sabia. Apesar da perda irreparável do seu esposo amado, ela ainda tinha muitos motivos para continuar a sua vida. Os motivos eram muitos, ela pensou, mas nenhum deles se comparava ao fato de perder aquele abraço, caso realmente ela partisse.

Naquele instante, sob todas as adversidades, um abraço salvou o mundo de Carmen.


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