Nas Sombras dos Devaneios

As lembranças são como partículas de ar: nos cercam e nos inundam sem pedir permissão ou nos cumprimentar. Hoje, fui invadido por um aglomerado dessas lembranças e acabei transportado a tempos queridos, viajando em carruagens de lágrimas e de boas risadas. Também revisitei tempos de dores, de agonias, épocas das quais tentei me distanciar por anos. Parece que não corri o suficiente.

Talvez não seja possível se esconder quando as marcas dos nossos passos inevitavelmente tatuam o chão atrás de nós.

Em minha viagem involuntária, após cruzar as fronteiras do tempo, vi-me diante de mim mesmo, um pequeno jovem com excesso de massa corporal e cabelos volumosos. Mal me reconheci. Aquele rapazinho parecia não levar a vida muito a sério: brincava, sorria, corria e falava sem parar com os seus colegas. Ele se descolava com a rapidez de quem não carregava um mundo inteiro sobre seus ombros. Vendo tanta alegria e leveza, sorri e flutuei sobre aquela cena imortalizada em meu universo memorial.

Como se um sopro me empurrasse, fui levado ao meu primeiro encontro com o amor platônico. Observei o meu próprio olhar fixo naquela jovem morena de cabelos levemente cacheados. Experimentei mais uma vez aquele sentimento inebriante. Consegui sentir o seu cheiro, o seu calor que me aquecia mesmo de longe. Ouvi a minha voz declarando o meu amor para ela como se fosse uma sinfonia composta apenas para aquele momento. Olhando fixamente em meus olhos, ela disse: “Gosto tanto de você, mas somos tão novos. Não quero perder a sua amizade. Esse ainda não é o nosso momento”. O meu coração exibia um pulsar estrondoso. Mesmo depois de tantos anos, essa lembrança ainda me sufoca e ressuscita algumas lágrimas dormentes.

Cheguei a alguns anos depois desse episódio, exatamente no dia em que, ainda na sala de aula, o meu pedido de namoro foi indiretamente aceito. Ali, roubei o meu primeiro beijo. Que lembrança incrível. Quero frequentar aquele lugar pela eternidade.

Um novo portal se abre. Entro. Saio no dia em que recebi a notícia de que eu tinha sido aprovado no vestibular. Sem dúvidas esse foi um momento muito marcante para mim. Pude me deitar mais uma vez naquela poça de lágrimas; lágrimas de alegria, de orgulho de mim mesmo.

Ali, saboreei o amargo sabor da angústia dos dias mais sombrios como universitário: pressão psicológica, cansaço físico, noites em claro, solidão. Porém, quando minha boca já não mais suportava o amargor daqueles dias, senti o mel da vitória escorrer pelos meus lábios, anunciando a conquista da minha graduação. Revivi a sensação da retirada de uma tonelada que repousava sobre as minhas costas.

Garanto-lhe que não há nada melhor do que viajar no tempo e poder viver mais uma vez aquilo que venceu a morte para continuar existindo em ti.

Mas não só lembranças boas conseguem sobreviver aos anos.

Como um menino com birra, fui puxado e levado à força a um tempo de dores. Assisti mais uma vez o balé da morte sobre a minha casa, levando, ao final de sua macabra apresentação, pessoas que tanto amei. Engasguei-me no próprio choro.

Penso que deveria existir a pena de morte para a dor.

Contudo, se o preço para a existência das boas lembranças é o convívio com as más, que ele seja pago.

Hoje, dando uma de cartógrafo, desenho o mapa que me guia no retorno às minhas memórias arrebatadoras. Uma delas é a gênesis do meu novo eu. Foi aquele dia que registrou o reencontro de um amor capaz de sobreviver às navalhas do tempo e dar início a uma obra digna dos grandes mestres. Foi lá, naquele tempo longíquo, que foi plantada a alegria incomparável da chegada da minha filha e a parceria intertemporal entre a minha esposa e eu. Não podemos nos perder a caminho daquilo nos faz viver.

Sempre que a vida me permitir, sentarei às sombras dos Meus Devaneios e, sem comprar passagem, viajarei para os confins da minha existência, para dias já vividos, mas também para um tempo que ainda nem sequer foi escrito. E se eu for levado sem prévia permissão, aproveitarei a viagem, contemplarei cada parada e aprenderei cada lição que os seus personagens me ensinarem. Afinal, o nosso espírito é constituído pelos tijolos que, artesanalmente, confeccionamos durante a nossa vida.


Robison Sá


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