Coragem


Uma verdade irrefutável


Seja corajoso e a vida lhe retribuirá.




O chamado

Esse é um relato do que aconteceu comigo quando eu ainda era um adolescente nos corredores da escola. Jamais esquecerei do momento em que fui chamado a decidir entre a injusta covardia e a respeitável coragem.

Nunca me esquecerei do rosto daquela mulher, sedento por poder, crente no sucesso da injustiça e no padecimento daquele inocente rapaz.


O passeio no intervalo

Era uma tarde de um fim de ano letivo na escola onde estudei desde sempre.

Meu amigo Márcio caminhava comigo pelos corredores daquela instituição de ensino, conversando sobre coisas que só amigos conversam.

Aquele passeio no intervalo nos levou a passar pela frente da sala 3, onde a professora Camila (nome fictício) abordou o meu amigo de infância e o surpreendeu com algo assustador.


A mestra assustadora


Ouvi Camila chamar Márcio e o acompanhei até a presença da mestra.

O olhar dela não era convidativo e o seu rosto estava coberto por uma cortina de mistério e fúria.

"Você vai repetir de ano, Márcio, porque não fez a minha última avaliação."

Foi uma fala seca, sem prelúdios. Ela foi direto ao ponto, como se o impacto de suas palavras não significasse nada. Pareceu-me que ela não se importava com aquela decisão ou com seus efeitos.

Meu amigo, totalmente constrangido com aquele anúncio feito em público, meio sem jeito, disse:

"Mas eu fiz a sua prova, professora. Tenho ela em casa, caso queira conferir."

Sem deixar o silêncio ganhar espaço, Camila emendou:

"Agora não adianta mais. Já fechei sua nota no diário. Não tem mais jeito."

Observando aquela cena atroz, resolvi advogar em favor do meu amigo.

"Professora, a senhora não pode reprovar o Márcio. Ele tem a prova. O nome dela não é 'prova' à toa. A senhora não pode negar a ele uma nota que ele conquistou com méritos próprios. Isso é impossível de ser feito. É ilegal. É imoral."

Vi a velha mestra engolir um nó que estava preso na garganta e olhar para mim com olhos fumegantes.

Eu estava muito triste e com raiva naquele momento. Triste porque não era essa a visão que eu tinha da Educação. Eu mesmo desejava ser professor e aquilo estava me decepcionando.

Também estava com raiva, pois a injustiça não nos causa conforto. Aquela mulher estava usando o seu "poder" para oprimir o seu aluno. Isso era demais. Definitivamente, não dava para calar diante dessa barbaridade.

Perante o seu olhar cortante, ergui minha cabeça e me preparei receber a resposta daquela que estava disposta a destruir os sonhos do meu jovem amigo sob uma justificativa infundada.


Um conflito inevitável

Logo após engolir as minhas palavras, Camila olhou para mim e disparou:

"Robison, fique calado! É melhor para você!"

O tom era ameaçador. Eu sabia que ela não estava de brincadeira. Ela estava disposta a replicar comigo o que estava fazendo com Márcio.

Nesse momento, vários alunos já estavam ao nosso redor, torcendo pelo agravamento da confusão. Uns torciam pelo nosso massacre; outros, pela destruição da professora.

Eles não compreendiam que havia uma coisa muito maior que isso acontecendo: a nossa coragem estava sendo testada... e dela dependia a justiça.

Para os jovens aquilo era uma briga, apenas isso. Sem motivos ou propósitos, apenas uma briga.


Meu encontro com a coragem


Não dava para fingir que eu não tinha dito nada. Eu não queria fingir isso. A razão estava comigo. A verdade também estava.

De cabeça erguida, mas sem arrogância, olhei nos olhos de Camila e perguntei:

"Isso é uma ameaça, professora?"

"É só um aviso", ela respondeu.

Respirei fundo, busquei manter os pés firmes no chão e respondi à mestra com tranquilidade.

"Sempre me esforcei muito, professora, para conseguir atingir os meus objetivos por meio dos meus esforços. Assim faço aqui com meus estudos.

Não acho que a gente deva ser julgado pelo tamanho das notas que tiramos nas provas, pois somos mais que um momento. Somos a soma de diversos momentos, de diversos estados.

Porém, como sei que muitos professores, a exemplo da senhora, fazem o nosso julgamento unicamente por meio dessas notas, busco sempre alcançar as melhores.

Construí essa realidade ao longo de minha trajetória, inclusive em sua disciplina. Essa conquista é minha e ninguém pode tirá-la de mim.

Com todo respeito, professora, não tenho mais nada para conversar contigo. Vou levar esse caso para a diretora. Acredito que a senhora foi longe demais. Precisamos de alguém com um olhar imparcial que tente mediar esse conflito entre nós."

Houve alguns minutos de silêncio até que Camila pudesse falar.

Ouvi a voz dela já um pouco distante, quando me aproximava da diretoria.