Ler ou assistir, eis a questão


Olá, tudo bem contigo? Espero, do fundo coração, que sim.

Seja bem-vind@ a mais esse bate-papo. Esse espaço também é seu. Portanto, volte sempre que quiser, a casa é sua.

Certa vez, Leo Buscaglia, escritor e acadêmico americano, falecido em 1998, disse:

“Somos de tal modo governados pelo que as pessoas nos dizem que devemos ser, que nos esquecemos daquilo que somos.”

Há um padrão nos sendo imposto. Ele chega sorrateiramente, tentando não deixar pegadas, mas nos atinge de uma maneira brutal, sem complacência.

As pessoas não sabem mais o que fazem por vontade própria e o que fazem por pura influência. A vida está sendo entregue ao controle de marionetistas invisíveis.

Portanto, esse é um bom momento para falarmos sobre leitura e seus benefícios, mas também de analisar os efeitos de sua substituição pelas maratonas de filmes e séries.

É um momento de falarmos sobre a necessária emancipação do eu, sufocado e esquecido em um mundo governado pelo nós.

Será que realmente a leitura tem poder de transformação? Ela só serve para passar tempo? Serve-nos ela de arma emancipatória? Traz a leitura mais benefícios do que os filmes e as séries? O que diz a ciência sobre os efeitos da leitura em sua vida? Posso substituir, sem perdas, uma obra literária por uma adaptação cinematográfica? Venha comigo e, juntos, descobriremos essas respostas ao longo dessa incrível jornada hamletiana.

Cérebro vs Recompensa

Que tal aquela comida de cujo sabor não lhe sai da mente? Ou aquela série que parece lhe chamar para assistir à próxima temporada? Lembra-se daquele livro que você não conseguia parar ler até que chegou ao seu final? Ou as sensações do prazer sexual, sempre revivendo na mente e pedindo um pouco mais?

O cérebro tem um sistema primitivo de recompensas capaz de detectar o que nos causa prazer e armazenar essa informação.

O preço que ele cobra por esse armazenamento é o incentivo constante para repetirmos a ação que nos causou "bem".

Coloquei o bem entre aspas porque nem sempre o que nos causa prazer nos faz bem. Basta ver o exemplo das drogas.

Em julho de 2019, uma reportagem do G1 trouxe o seguinte tema à discussão: Como funciona o sistema de recompensa do cérebro e por que ele mexe tanto com sua vida. Nela, o entrevistado foi o especialista Rodrigo Grassi, psiquiatra e professor da PUCRS e pesquisador do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul.

Resumindo a fala do especialista, o funcionamento do Sistema de Recompensas do cérebro se dá em 03 passos:

  1. Experiência prazerosa ➡ o cérebro armazena em uma região com forte poder biológico.

  2. Experiência registrada ➡ o cérebro vai pedir para repetir essa ação novamente, utilizando toda essa força biológica.

  3. Córtex pré-frontal ➡ ele tenta reagir, travando uma luta entre razão e emoção. Caso a emoção vença, vai ficando cada vez mais difícil superar o desejo de repetir a ação solicitada.

Assim, bons e maus hábitos são criados. Esse é o ciclo básico que o cérebro roda para automatizar escolhas que, segundo sua interpretação, nos fazem bem.

Podemos ser escravizados por esse Sistema, mas também podemos usá-lo em nosso favor.

Fiz questão de falar sobre isso antes, pois precisamos compreender os porquês de as pessoas sentarem todos os dias na frente da TV e maratonar horas e horas de séries e filmes.

Os algoritmos estudam o nosso comportamento, as nossas escolhas. Eles percebem o que chamou mais a nossa atenção e nos oferecem mais daquilo. Quem o programou, sabe como o nosso cérebro funciona.

Esse fato também serve para bons livros, capazes de ativar gatilhos em nossas mentes que não nos deixam escapar até o desfecho final.

Isso explica porque, em geral, as pessoas gastam mais tempo assistindo a filmes e séries do que lendo.

Em 2019, o Blog Jovem Nerd publicou um post no qual aponta uma pesquisa da empresa Picodi. Nele, afirma-se que 31% dos brasileiros não leem livros.

Enquanto isso, a Netflix revelou que, em média, em 2020, as pessoas passaram 3h por dia na frente da tela, vendo à sua programação.

O mundo tem se tornado muito superficial. As pessoas preferem tudo resumido, com muito estímulo visual. Não querem mais imaginar, mentalizar, antecipar, criar mundos em suas mentes. Preferem vídeos curtos do Youtube, imagens no Instagram, textos de 280 caracteres no Twitter.

Não há tempo para os livros "inchados", mas sobra tempo para a rolagem infinita das redes sociais.

O tempo é curto para um artigo científico, por isso é preferível confiar a própria vida em textos de 150 palavras.

Mas será que isso tem consequências na vida real? Vejamos o que dizem as autoridades no assunto.

Ler para viver mais... e melhor

Ler é exercitar a imaginação.

Uma boa leitura nos faz ingressar no mundo lido, conviver com os personagens, experimentar a cultura ali escrita, saborear comidas, sorrir, chorar, tomar sustos, gritar, sentir até mesmo as partículas de ar se chocando com a nossa face às margens de um mar fantásticos em terras inesquecíveis.

A imaginação é um exercício necessário à criatividade, assim como a mentalização e a antecipação.

Tudo isso acaba desembocando na aprendizagem.

É impossível ler uma página de livro e afirmar que nada aprendeu ali. Algo novo acaba sendo incorporado a esquemas existentes, o que Jean Piaget chamou de assimilação.

Deparamo-nos também com situações totalmente novas. O nosso cérebro, em desequilíbrio, faz uma varredura na tentativa de encaixar essa informação em uma gaveta organizadora que acumule informações similares. Caso não encontre tal gaveta, ele cria uma específica para essa nova categoria. Isso é o que Piaget definiu como acomodação.

É possível também que assimilemos algo e depois percebamos que colocamos a informação em uma gaveta inadequada. Daí passamos ao processo de acomodação.

A leitura é um constante processo de assimilação e acomodação ou, usando a definição desse processo pelo biólogo/psicólogo antes citado, de Equilibração Majorante.

Augusto Buchweitz, pesquisador do Instituto do Cérebro (InsCer) e professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida, disse ao Blog da PUCRS:

O hábito de leitura tem relação comprovada com uma melhor qualidade de saúde mental. A leitura, por envolver imaginação, mentalização, antecipação e aprendizagem (sempre aprendemos, ao menos, palavras novas), funciona como um ‘exercício’ para o cérebro humano. Apesar de não ser um músculo, o nosso cérebro precisa ser estimulado.

Além disso, não há maneira mais simples e barata de se conectar com as maiores mentes do mundo inteiro, estudiosos das diversas áreas, grandes mestres que compartilham conosco sua expertise, muitas das vezes adquirida à grande custo.

Já a pesquisadora Aline Fay, também ao blog da PUCRS, mostra que pesquisas recentes apontam para uma redução de 68% na carga de estresse dos leitores.

A pesquisadora ainda chama atenção para o benefício de retardamento dos sintomas de doenças neurodegenerativas, a exemplo da demência e do Alzheimer.

Como ler estimula a imaginação e a imersão no mundo lido, “a leitura favorece a melhora da escrita, expande o vocabulário, trabalha a criatividade e auxilia na formação do senso crítico (capacidade de reflexão sobre algo)”, afirma Aline.

Isso também contribui para o desenvolvimento da empatia, para o favorecimento das emoções e da humanidade.

É corriqueiro o leitor se sentir no lugar dos personagens, sentir suas dores, suas alegrias, suas angústias, suas conquistas.

Aqui está um campo vasto para aprendizagens, para o conhecimento de vários mundos e de suas peculiaridades, de várias histórias de vidas, reais ou imaginárias.

Sobre o vocabulário, é indiscutível que o mundo das redes sociais é um engolidor de palavras. As pessoas abreviam tudo e repetem as mesmas palavras o tempo inteiro.

De acordo com Ieda Alves, da Nova Escola, há cerca de 600 mil palavras na Língua Portuguesa.

Quantas palavras você acha que, em média, um brasileiro carrega em seu bojo?

Para além disso tudo, a leitura nos faz desenvolver o senso crítico sempre necessário, mas agora extremamente urgente.

Estamos lidando com um problema de saúde pública mundial. Para agravar isso tudo, nunca se viu tanta desinformação, tantas notícias falsas.

Leigos rebatem informações científicas com achismos, falácias e misticismos.

Não é somente importante desenvolver o senso crítico, mas necessário.

Leituras de fontes confiáveis permitem que você cruze informações e faça os seus próprios julgamentos.

Ler com um olhar atento, buscando termos-chaves, a autoridade de quem escreveu e as bases que ele (a) utilizou, liberta sua mente.

Mark Zuckerberg, criador do Facebook, afirmou ler um livro a cada duas semanas. Quantos livros você acha que os usuários vorazes do Facebook leem nesse mesmo tempo? Quem você acha que construiu um patrimônio material e cognitivo maior?

Essa é uma realidade para os homens mais ricos do mundo. Eles leem com voracidade, aprendem diariamente, têm insights durante as leituras ou após elas. Multiplicam seus patrimônios e constroem impérios sobre as leituras.

Mas será que assistindo a filmes e séries não consigo chegar ao mesmo destino?

O mundo cinematográfico

Figurinos incríveis, efeitos visuais que paralisam os nossos olhos e aceleram os nossos corações, cenas de tirar o fôlego, mundos incríveis, gatilhos mentais... tudo isso nos prende à frente da tela da TV. Não dá para negar que as produções cinematográficas são incríveis, não é?

Não é isso que iremos julgar aqui. Não falaremos da qualidade dos filmes e quanto eles nos prendem. Falaremos sobre os seus benefícios quando comparados à leitura.

Embarquemos nessa aventura, então.

Há muitos filmes inspirados em livros, assim como também há séries.

Anna Rachel Ferreiras, da Nova Escola, citando o jornalista de cinema Rodrigo Salem, diz que um filme não é a “materialização” de um livro e, sim, uma nova obra que toma como base o texto escrito.

Algumas dessas adaptações deixam muito a desejar e irritam os fãs dos livros-base. Outras, superam as expectativas da maioria.

Um bom filme nos faz viajar, sem dúvidas, mas não nos deixa muita opção para imaginar.

O diretor/roteirista interpreta à sua maneira o texto lido e materializa isso nas cenas visuais.

Veja que as cenas já são prontas, ao contrário do que acontece nos livros, onde temos que criar a imagem mental do que se passou na mente do escritor — ou a nossa própria versão disso.

Os efeitos audiovisuais dos filmes são tão fortes que não prestamos muita atenção nas palavras novas que surgem para incorporá-las ao nosso vocabulário. Além disso, o próprio vocabulário utilizado nos filmes e nas séries não nos oferece muita novidade. A maioria deles é dublada, chegando para a gente um vocabulário ainda pior.

É importante lembrar que as adaptações do cinema resumem em até 2h livros com conteúdos de dez, quinze ou mais horas de leitura.

Poderíamos dizer que eles utilizam as partes mais importantes do livro. O problema é que esse é o julgamento do diretor/roteirista, não o nosso. Não fomos chamados ao julgamento, à análise do que nos importa, à crítica sobre o texto. Não há um comportamento ativo da nossa parte nesse processo. Essa inatividade não favorece o nosso protagonismo, e isso me incomoda.

Não quero aqui dizer que não devemos jamais assistir a um bom filme ou a uma série. Nada disso. Eu mesmo assisto. Mas aconselho que isso seja feito de forma moderada.

Faça isso sem que o seu tempo de leitura seja comprometido.

Dito isso tudo, será melhor ler ou assistir?

A grande conclusão

Imaginar, mentalizar, antecipar, aprender e imergir no texto escrito é arrebatador. Há uma dança entre as sinapses cerebrais, um balé magnífico entre os neurônios. Podemos viajar entre as dimensões, conhecer o multiverso, criar mundos à nossa maneira.

A leitura favorece o corpo e a mente, reduz o estresse, faz crescer o nosso vocabulário, exalta o senso crítico, retarda doenças como a demência e o Alzheimer.

O leitor pode se conectar com as maiores mentes do mundo, estejam elas fisicamente entre nós ou não.

Livros são verdadeiras mentorias.

Antigamente, um mestre tinha que aceitar fornecer essa mentoria ao seu discípulo, assim como aconteceu entre Sócrates, Aristóteles e Platão. Hoje, você tem as sombras dos grandes mestres ao seu alcance a qualquer hora, em qualquer lugar. Descanse nelas. Aprenda com eles até se tornar um deles.

Apesar de gostar de filmes e séries, com certeza dou preferências às leituras. Deixo os filmes para ver com a família, comendo pipoca e dando sorrisos coletivos. Não sou o inquisidor das TVs. Acredito que, se usada com moderação e objetivos claros, podemos tirar bons proveitos dela. Contudo, como espero ter deixado claro até aqui, os benefícios da leitura são inúmeras vezes maiores.

Enfim, chegamos ao fim desse dilema shakespeareano:

Ler ou assistir, eis a questão.

Leia bons livros como hábito.

Assista a filmes e séries ocasionalmente.

Até mais ver

Foi bom estar contigo mais uma vez. Espero que o nosso bate-papo até aqui tenha valido a pena.

É sempre bom refletir sobre a vida e o que torna ela menos pesada e mais feliz. Caso tenha interesse, em 2020 escrevi o livro "10 receitas para uma vida melhor". Garanto uma leitura leve e momentos de muita paz e reflexão.

Até o nosso próximo encontro.

Grande abraço!

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